dudu diuana,

me chamo rafael, tenho 23 anos e você certamente não me conhece. mas já fomos amigos, sabia?

assim como você, passei os primeiros anos da minha vida na tijuca, lá na conde de bonfim. tempos que guardo com imenso carinho num baú de memórias, com passeios semanais pela quinta da boa vista, torneios de futebol de botão, bola de gude, e pião.

e foi lá que nos conhecemos.

pra ser sincero, não sei quase nada sobre nós. não sei qual era o grau da nossa amizade, e nem por quanto tempo durou. mas parece que fomos bons amigos. lá no fundo do meu baú, atrás de recordações de paquetá e do cheiro da malasartes, tenho uma vaga lembrança de cor amarela de nossas idas às praças da tijuca.

lembro de você graças a um tio chamado inácio. “cadê o dudu diuana?” é uma pergunta que surge a cada natal, reveillon e reunião familiar. e sabe o que me apavora e, de certa forma, entristece? talvez você não tenha tido um tio inácio pra falar sobre mim, então essa carta poderá lhe causar enorme estranheza.

em tempos passados, quando tio inácio relembrava, eu me fazia tantas perguntas, como “será que ele tá vivo?”, “o que será que ele faz?”, “será que virou bandido?”.

mas, dudu, preciso lhe fazer uma confissão: graças a internet, eu descobri tudo. você tá vivo sim, não virou bandido, e ainda estudou na elza campos, assim como eu. será que estudamos juntos e o tio nunca me contou? isso elevaria nossa amizade a um patamar ainda maior, né? pra mim, eramos apenas amigos de praça.

precisamos marcar um chopp pra botarmos o papo em dia. tenho tanta coisa pra te contar, você não faz idéia. me mudei da tijuca, aprendi a ler, botei aparelho nos dentes, ganhei um irmão e, porra, muito mais. tem tanta novidade que uma só noite não será o bastante.

que tal marcarmos vinte anos de chopp?

jaques lamure
ou rafael

Anúncios

Sobre a existência do Acre

outubro 15, 2007

Prezada Lucis,

 

Eu ouço falar de milhares e milhares de pessoas passando noites em claro tentando descobrir o que é a ilha de Lost, ou onde ela fica. Isso, pra mim, não tem a menor importância. Eu passo noites em claro pensando no Acre.

 

O tema sobre a existência do Acre já foi amplamente discutido por nós. Uma das hipóteses cogitadas era a de que, ao entrar no avião, o passageiro seria submetido a alguma substância calmante e acordaria em um lugar genérico, sendo convencido de que aquele lugar era o Acre.

 

Quando você me disse que o Acre era um lugar vintage, repleto de bicicletas, de bibliotecas abarrotadas, de tequilas baratas e de coca-cola em vidro de 1 litro, acreditei piamente na teoria de que o Acre é uma metáfora para viagens no tempo. O avião, na verdade, te transporta para um passado recente que – repare só – coincide com nossas infâncias.

 

Estou espantado com esta última teoria. Eu te conheci trabalhando, sofrendo os primeiros anos de uma juventude que, de tão superestimada, acaba sendo angustiante. Eu não te conheci na infância, nem mesmo na adolescência. Eu não bebi tequilas baratas com você, nem apostei corridas de bicicleta. Nós nunca devolvemos juntos o litro de coca-cola numa venda qualquer. Eu também não te vi passando o dia com sua mãe e dormindo com o sorriso de quem se divertiu muito.

 

Embora eu não tenha visto nada disso, sua viagem me traz uma sensação de retomada. Sabe quando a gente, antes de trocar de marcha, deixa o câmbio, por uma fração de segundo, no ponto morto, como que deixando o chão carregar o carro e o carro nos carregar? Talvez essa fração de segundo se chame Acre.

 

Espero ansiosamente pela próxima marcha, e tomara que ela te traga de volta ao Rio.

 

Beijo,

 

Benedict “Ghostwriter” Johnson

Em Arco-Íris

outubro 13, 2007

Bruno e João,

Como assim vocês acharam o disco novo do Radiohead mais pop que os antigos? É claro que ele não é o Ok Computer (que o próprio Thom Yorke admite não ser mais um disco do grupo e sim dos ouvintes), é claro que ele não é o Kid A, mas ele é fantástico por méritos próprios e por ser mais uma mudança da banda que constantemente prova que é a melhor do mundo sem nem precisar fazê-lo. Talvez seja o disco com as maiores sutilezas, principalmente em termos de produção musical, da banda – cada faixa tem vários timbres diferentes que teoricamente não funcionariam juntos, mas o Radiohead conseguiu, e de uma maneira belíssima.

Escutem novamente e atentem para os detalhes, que são a alma do In Rainbows!

Abraços

中村 駿

R$7,50

outubro 8, 2007

rio de janeiro, 8 de outubro de 2007

prezados leitores,

envio-lhes esse breve telegrama pra justificar a minha ausência na última semana.

o acumulo de trabalhos da faculdade e gravações do meu grupo musical de festa fizeram com que o curto caminho entre minha casa e os correios se tornasse mais longo do que a travessia praça xv-paquetá a nado.

estarei escrevendo uma carta por semana. e, quando não puder, avisarei previamente via telegrama.

muito carinho,

jaques lamure

Prezados,

 

Quando eu era criança, pensava em ser desenhista, muito embora não conseguisse nem desenhar as letras do meu próprio nome; pensava em ser astronauta, apesar do medo de altura – eu, na minha sabedoria infantil, percebi que ele perdia todo o sentido na ausência de gravidade. Pensava em milhares de coisas. Foi quando cheguei à adolescência que percebi que minha verdadeira vocação era ser ghostwriter.

 

Não me comparo àquele personagem de Budapeste, um ghostwriter metido a artista, com um quê de frustração – tá, talvez nisso eu me pareça com ele. Eu era ghostwriter de cartas de amor. Talvez por não acreditar muito em amor, talvez por acreditar demais, abri mão de vivê-lo durante certa fase da vida, e preferi experimentar as suas sensações mais pueris – as físicas eram impossíveis, não consegui ser ghostkisser nem algo do gênero – vivendo a história dos outros. Quantos olhares para amigos conquistei com simples bilhetinhos de sala de aula? Quantas noites românticas proporcionei a eles, que mal sabiam soletrar a palavra amor? Quantos flertes presenciei, sentindo o mesmo frio na barriga dos envolvidos?

 

Minha vida de ghostwriter era maravilhosa. Mas, num belo e longínquo dia de minha adolescência, tive a brilhante idéia de desistir do prefixo “ghost” e me jogar de cabeça nesse jogo que eu, supostamente, conhecia tão bem.

 

Deveria ter deixado a porra do prefixo em paz.

 

Atenciosamente,

 

Benedict “Ghostwriter” Johnson

 ex-cara mariana,
parte. foi tudo um grande pedaço do que eu achava que era um inteiro, tudo uma grande metade de algo que eu supunha ser um sólido. talvez até menos do que uma metade, talvez menos do que a metade da metade. então, eu resolvi mostrar seu rosto escondido numa cortina, porque o que está dentro dele não passa de uma fração do que você quer que seja. as pernas cruzadas demonstram uma vergonha inexistente e o sorriso falso não passa de um artifício fútil, vão, pequeno, de tentar conquistar as pessoas e esconder suas fraquezas.

eu sei de um dia que chorou porque disseram que você não pertencia ao grupo que frequentava. mostrou ali toda sua pequenez em se importar com rótulos e frivolidades – e não verteu lágrimas por não estar no meio, não sofreu por perceber-se uma estranha no ninho; escondeu as mãos no rosto e soluçou por perceber a carência vindo à tona.

o que você precisa entender é que todo ser humano é sozinho por excelência – o ser humano é um animal triste, sujeito a mudanças de humor e falhas, muitas falhas. a maneira como se lida com essas falhas é que faz uma íntegra ou não – e o que fez comigo é jeito de alguém pequeno como sua cidade.

o blá-blá-blá que mal-diz as pessoas, o riso debochado e arrogante, a infantilidade da vontade de ser alguém popular, o desprezo e a desatenção a alguém que foi vê-la, e, principalmente, as mentiras e atitudes falsas: tudo isso é você. o que você passou para mim em todas as nossas conversas ao longo desses dois anos foi apenas o que você queria ser e que espelhava em quem você achava que eu era. apenas uma metade, um fração, de uma personalidade pequena e, por que não, nojenta.

realmente, eu não apaixonei-me por você. enamorei-me pela bela imagem que criei de você baseada em suas palavras mentirosas. tinham me avisado de minha loucura. tinham advertido para que eu não fosse tão longe.

esborrachei a cara como sempre acontece por minha passividade e cegueira.

ainda acho que essas palavras são poucas perto da raiva que sinto de você. quase tive um momento ignorante enquanto eu estava perto de você, quase fiz o ato humilhante tanto detestado e temido por vossa pessoa: um sonoro tapa na cara. agora vejo que o ódio que sua mãe sente por você não é infundado. eu ficaria tristíssimo se uma filha minha se tornasse a mal-caráter que você é.

saia dessa máscara idiota que você criou de maturidade e auto-controle; isso não existe. nós somos humanos, nós somos tristes, nós erramos, mas você não tenta melhorar. acho que você, assim como eu, é cega, só que é uma cegueira completamente diferente da minha – enquanto eu vejo quem sou mas os erros me perseguem, você é pequena como um todo.

ah, mas por que estou me dando o trabalho de servir de livro de auto-ajuda para você? acho que merece, apenas e afinal, uma chamada, uma pequena frase, vinda de mim. não mais, não menos, apenas:

– sua grande filha da puta.

中村 駿

 

memorabilia

setembro 24, 2007

rio de janeiro, 24 de setembro de 2007.

 querido jaques lamure,

dessa vez, o parto do nome foi natural, outrora, nem forcepes deu jeito.  talvez agora o convite tenha vindo em hora certa. o hiato desde do dia da criação, até o primeiro pronunciamento já foi justificado e aceito. a dúvida que agora permanece é quanto a  sua sobrevivência… ou sua sobrevida. espero que me surpreenda e te escreva daqui há um tempo – com minha franja erroneamente cortada já crescida – comentando as maravilhas do nosso já crescido filho único, o ‘extravio’.

de qualquer maneira,

a saudade é algo relativo mesmo, já percebeu que somos ridiculamente acomodados pela certeza de estarmos geograficamente próximos? vamos nos mudar, viajar, partir para sabe-se lá onde, e lamentar tantos programas furados. tarde demais, você vai ver. enquanto isso, os bingos cariocas nos esperam já quase sem esperança.

ainda não o bastante,

troco aquelas fotos que você tanto quer, por aquelas que eu tanto quero. o que recebi hoje foi só um aperitivo. sua saudosa mavica ainda existe?  2001 parece que foi ano passado. e logo, 2007 vira ontem também.

 do que nos importa a greve dos correios? vida longa ao ‘extravio’.

beijos,

 isadora chevalier.

 p.s: obrigado por um dia, ao som de uma recém apresentada banda carioca tocando na tv, ter me explicado via icq o que era um diário virtual.