Sobre a existência do Acre

outubro 15, 2007

Prezada Lucis,

 

Eu ouço falar de milhares e milhares de pessoas passando noites em claro tentando descobrir o que é a ilha de Lost, ou onde ela fica. Isso, pra mim, não tem a menor importância. Eu passo noites em claro pensando no Acre.

 

O tema sobre a existência do Acre já foi amplamente discutido por nós. Uma das hipóteses cogitadas era a de que, ao entrar no avião, o passageiro seria submetido a alguma substância calmante e acordaria em um lugar genérico, sendo convencido de que aquele lugar era o Acre.

 

Quando você me disse que o Acre era um lugar vintage, repleto de bicicletas, de bibliotecas abarrotadas, de tequilas baratas e de coca-cola em vidro de 1 litro, acreditei piamente na teoria de que o Acre é uma metáfora para viagens no tempo. O avião, na verdade, te transporta para um passado recente que – repare só – coincide com nossas infâncias.

 

Estou espantado com esta última teoria. Eu te conheci trabalhando, sofrendo os primeiros anos de uma juventude que, de tão superestimada, acaba sendo angustiante. Eu não te conheci na infância, nem mesmo na adolescência. Eu não bebi tequilas baratas com você, nem apostei corridas de bicicleta. Nós nunca devolvemos juntos o litro de coca-cola numa venda qualquer. Eu também não te vi passando o dia com sua mãe e dormindo com o sorriso de quem se divertiu muito.

 

Embora eu não tenha visto nada disso, sua viagem me traz uma sensação de retomada. Sabe quando a gente, antes de trocar de marcha, deixa o câmbio, por uma fração de segundo, no ponto morto, como que deixando o chão carregar o carro e o carro nos carregar? Talvez essa fração de segundo se chame Acre.

 

Espero ansiosamente pela próxima marcha, e tomara que ela te traga de volta ao Rio.

 

Beijo,

 

Benedict “Ghostwriter” Johnson

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One Response to “Sobre a existência do Acre”

  1. Lucis Says:

    Meu caro,

    Em primeiro lugar, quero pedir desculpas pela demora em te responder. Mas eu acho que você já sabia que, estando em um local tão distante como o Acre, a minha resposta demoraria um certo tempo para chegar até você… Afinal, existe uma diferença de 3 horas no nosso fuso horário, ou seja, o Acre está 3 horas atrás do horário oficial de Brasília. Três horas atrás? Hummm… Acho que isso talvez tenha a ver com a sua teoria do Acre proporcionar essa sensação de retomada a um passado recente.

    Pois é, essa sua nova teoria sobre o Acre me tocou de uma maneira especial. Como você mesmo disse, o Acre é um lugar que dá essa sensação de retomada e eu acredito que essa retomada possa ser vista de várias maneiras e que vai variar de acordo com a realidade atual de cada um de nós.

    Para você, a minha narrativa sobre o Acre te levou a um momento maravilhoso da vida e cheio de novas experiências: andar de bicicleta, beber coca-cola em garrafa retornável, experimentar bebidas baratas, rir junto com os amigos e de ir dormir com um sorriso no rosto de quem aproveitou bem o dia. O Acre passou a representar a retomada ao que todos nós fomos um dia, a uma realidade que diariamente sentimos saudades (pelo menos eu, enquanto saudosista de carteirinha, não me canso de sentir saudades da minha infância e adolescência!).

    No meu caso, a vinda ao Acre acabou sendo perfeita para a situação em que eu estava vivendo. Eu precisava parar tudo que estava fazendo para poder me reencontrar. Você sabe muito bem como é essa sensação de estar meio perdido e sem rumo, não é? Pois é. Eu precisava parar tudo, respirar bem fundo, espairecer e “retomar” a minha vida.

    Demorei um pouco para perceber isso, mas a sua carta me fez enxergar tudo isso com tanta clareza!

    Apesar de não saber dirigir, eu entendi perfeitamente o que você quis dizer com, por uma fração de segundo, deixar o chão carregar o carro e o carro nos carregar…. Nesse exato momento eu estou deixando o carro me levar sem pressa e sem nenhuma preocupação, aproveitando bem o passeio e aguardando para ver no que isso tudo vai dar.

    E como aqui tudo acontece de maneira muito peculiar, até os dias e os meses transcorrem num ritmo muito próprio e sem pressa. Tanto é assim que os dois meses que vim passar aqui no Acre vão acabar se transformando em quatro, mas num ritmo que, para mim, a sensação ainda é de que são apenas dois meses….

    Eu também estou esperando pela próxima marcha, mas pode ter certeza que, na fração de segundo certa, a próxima marcha vai me levar de volta ao Rio e ai a gente vai poder matar a saudade e sair para tomar um drink e colocar a conversa em dia.

    Beijos,

    Lucis


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